Por algum tempo eu me contive na hora de alugar esse filme e assistir. Foi por alguma bobeira, com certeza. Eu não sabia nada sobre ele. Provavelmente alguma coisa com o título, porque a capa dele é bonita. Não sabia que era um filme francês (olha que o roteiro original era em inglês, foi adaptado para trazer mais coerência à história real), não sabia o que era um escafandro, nada. Mas então fui alugar uns filmes para assistir com meu pai e ele acabou pegando esse e, admito, é um filme simplesmente sensacional.
Quem ouviu nosso Podcast, lembra que o filme fala sobre a história real de Jean-Dominique (Mathieu Amalric, que na verdade ocupou a vaga deixada por ninguém menos que Johnny Depp, que abandonou o projeto para filmar o último Piratas do Caribe), editor da revista Elle que um dia tem um derrame que o deixa completamente paralisado, exceto pelo olho esquerdo, que se torna seu único meio de se comunicar com o mundo. E então, somos levado a uma jornada maravilhosa.
Agora, meu Deus, como que alguém pode ficar preso dentro de si mesmo (olha aí a metáfora do escafandro) e ter apenas um olho como comunicação com o exterior? Isso nos leva a algumas das outras personagens fixas do filme. Uma fisioterapeuta (Marie Lopez, interpretada por Olatz López Garmendia), que o ajuda a tentar trabalhar o resto do corpo e a ortofonista HenrietteRoi (Marie-Josée Croze) que o ensina a se comunicar com seu único olho.

Eu diria que os principais pontos fortes do filme são o fato dele se basear no livro escrito pelo próprio Jean-Do (como ele era chamado) depois do derrame, e o fato do filme trabalhar essa fase nos colocando na posição da personagem. A maior parte do filme se passa enquanto nós acompanhamos a vida de Jean-Do a partir de seu único olho. E isso é fantástico. Podemos vê-lo piscar, olhar para um lado, para o outro e, o melhor de tudo, ouvir seus pensamentos. No começo eu achei que isso poderia ser um pouco chato. Afinal, você depender do olho do cara para ver o filme é algo que soa meio parado. Mas é tudo perfeito. Vez ou outra, enquanto Jean-Do se lembra de momentos passados, nós somos permitidos a olhar o mundo de fora. Mas quando voltamos à realidade, ao escafandro, estamos de volta presos ao personagem – exceto em poucos momentos de reflexão mútua de Jean-Do com outras personagens, como sua ex-mulher Céline (Emmanuelle Seigner, dona desse lindo rosto visível na capa do filme) . Isso faz de O Escafandro e a Borboleta um filme único.
O filme se inicia com ele recém-chegado ao hospital, ainda sem se lembrar o que aconteceu e como. Suas lembranças do passado – os momentos de liberdade – vão surgindo aos poucos no filme progressivamente. Sua situação real, as dificuldades de sobrevivência, a fragilidade, também se desenvolvem, acompanhando o andamento de suas lembranças em direção a um final monumental.

Voltando algumas frases, gostaria de comentar o fato dele ter escrito um livro enquanto vivia em seu escafandro. Henriette o ensina uma maneira de se comunicar. Ela tem uma placa com as letras do alfabeto na ordem em que são mais usadas. Ela fala uma por uma e ele tem que piscar na letra que quer usar. E é assim que, letra por letra, piscada por piscada, ele escreve o livro no qual o filme se baseia.
Sério. Desculpe enfocar tanto isso, mas eu queria deixar claro de que todas as pessoas do mundo deveriam assistir a esse filme. A profundidade dele é tanta que mesmo agora, dias após ter assistido, ele não perdeu sua força e, na verdade, parece ainda melhor agoraque me vejo passando adiante o que assisti.
Acho que, tratando-se de um filme que assistimos a partir da perspectiva de visão de um personagem, ele consegui ultrapassar o limite do visual e cada cenaé simplesmente profunda demais. E é até por isso que acabei usando também várias imagens para compor essa resenha.
Caminhando para o fim, vale dizer que o filme é dirigido por Julian Schnabel, um diretor que eu não conhecia, mas que pelo visto tem muito talento para queimar pela frente, e teve seu roteiro adaptado por ninguém menos (já usei essa expressão, eu sei) que Ronald Harwood, responsável por obras como O Pianista, Oliver Twist, o controverso O Amor nos Tempos de Cólera e o recente Australia. O trabalho que ambos tiveram de recriar os sentimentos de Jean-Do em tela é memorável e compõe com certeza um dos melhores filmes de 2007 (no Brasil, aparentemente foi oficialmente lançado em 2008). Para tanto, conseguiram filmar no mesmo hospital em que Jean-Do ficou internado, conhecendo pessoas que conviveram com ele e aproveitando os locais reais em que muitos dos acontecimentos literalmente ocorreram. Não é à toa que ganhou o BAFTA de Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Direção em Cannes e no Globo de Ouro, onde também ganhou como Melhor Filme em Língua Estrangeira além de diversos outros, totalizando 40 prêmios em todo o mundo e dezenas de outras indicações.
Se às vezes não sabemos como identificar uma obra prima, sinceramente, é só assistir O Escafandro e a Borboleta.

Mas posso estar exagerando. O que vocês acham?